davidмarreiroswriting#zerozeroum



]thinking, that's the problem[
]a quem possa interessar ou apenas para me lavar[



13.5.08

e

E fica sempre algo por dizer.
Fica sempre algo por perguntar, por referir, por responder, por afirmar.
Fica sempre algo perdido pelo meio do caminho.
Deixamos sempre algo na estrada abandonado e sozinho.
Quando o queremos voltar a encontrar ou recordar
simplesmente já se perdeu, já se deixou morrer.

E por vezes ainda o tentamos reanimar.
Ainda o tentamos fazer voltar à vida.
Certas vezes com sucesso,
outras num evidente retrocesso.
O que é facto é que algo fica sempre na fria estrada.
O que é facto, é que somos sempre cobardes para acabar.

E então nunca acabamos nada.
Tudo perdura infinitamente num espaço e tempo inexistentes e infindáveis,
apenas porque algo fica sempre a boiar suspensos
como um lago cheio de inúteis e lentos fragmentos
que demoram a submergir ou a subir à superfície,
que basicamente demoram a existir, a sair através da fala.

E assim, vivemos a nossa vida,
sempre com a espaçosa garganta entalada,
cheia de tudo o que lá permanece esquecido, amontoado,
como se tratasse de um velho baú selado e fechado,
apinhado e sujo de pó até ao palato,
quase a se abrir caso não fosse a chave perdida ou escondida.

E onde se encontra ela? Onde está essa chave?
Nem o próprio e muito menos os outros sabem. Ninguém sabe.
Ela haverá de aparecer magicamente, simplesmente se materializará.
Repentinamente em algo se tornará,
saindo simplesmente sob a forma de algo,
algo que sobe à superfície e abandona para sempre o lento lago.

E sempre voltarão outros fragmentos.
Outros fragmentos de pensamento, de fala,
de coisas que ficam por dizer
e que nada mais lhe restam do que a lentamente permanecer
nesse lago sujo e apinhado localizado no meio do nada,
nessas estradas e caminhos frios e isolados.

E assim se fica sempre com algo por dizer,
apenas por neste momento esse algo querer permanecer
tendo assim de acabar deste modo,
apesar de nada ter de acabar por nada ter começado.
Mas, felizmente, haverá sempre, sempre e sempre haverá
aquela pequena palavra que é letra apenas e que tudo continuará.

folhas

Há tanto tempo que aqui já não escrevo.
Há tanto tempo que aqui quero escrever.
Há tanto tempo que alguma coisa quero dizer.
Há tanto tempo que não tenho tempo para ter tempo.

Que saudade que tinha destes momentos,
destes momentos apenas comigo só e comigo apenas
Não que eu seja um solitário cheio de problemas.
Apenas e simplesmente gosto de falar comigo mesmo.

Esquizofrenia?…
Provavelmente… provavelmente uma provável esquizofrenia saudável.
(Talvez seja esta a desculpa dos esquizofrénicos para se sentirem bem no seu dia-a-dia!
E talvez eu apenas me sinta melhor ao dizer isto ao meu Eu.)

Seja como for… gosto de falar comigo mesmo.
Seja como for… gosto de descarregar aqui toda a minha depressão e apatia.
Seja como for… gosto de descarregar aqui toda a minha felicidade e alegria.
Seja como for… gosto simplesmente de me descarregar aqui mesmo.

Aqui mesmo e apenas aqui,
por entre estas folhas brancas de papel impessoais e dóceis,
que nada contestam nem nada pretendem contestar,
que apenas desejam ser folhas, brancas e puras

que apenas se corrompem pelo uso da caneta,
esta que é motivada pelo ser maldoso que a usa
e que tudo escreve, muda e suja,
apenas para a si mesmo fazer limpeza.

Portanto, a nu aqui me exponho.
A minha alma (caso ela exista) fica totalmente despida
e aqui aterra sem aviso prévio
após uma vertiginosa e inesperada queda.

Mas é assim desta forma que eu me limpo,
que eu me lavo, que eu me livro de toda esta suja sujidade
que é o sujeito que sou
e do qual apenas me quero limpar, mas não anular.

Tomaremos isto como uma melhoria própria.
Uma descarga de energia negativa, maliciosa
que atormenta e bloqueia os recursos sãos e benéficos.
Limpar o mal temporário porque detrás dele permanece o bom sistemático.

E é para isto que isto é eficaz
e para mais nada, por muito que aqui se mostre.
E assim acabo tudo isto, mesmo que nada tenha dito…
Bom… existe sempre um “E” que fica por ser proferido