Que bem que sabe aqui estar.
Aqui, aqui tão perto deste imenso mar.
Com o sol já a descer.
Sob uma luz difusa vagarosamente a morrer.
Que paz, que paz que isto confere.
Com este momento nada interfere.
Sinto-me livre em voo planado.
Tudo está bem, tudo está calmo.
O único som que se ouve é o bater das ondas,
revoltas neste mar tão sereno.
Um barulho ensurdecedor que tudo absorve
Mas simultaneamente tão mudo que tudo anula.
davidмarreiroswriting#zerozeroum
]thinking, that's the problem[
]a quem possa interessar ou apenas para me lavar[
26.4.08
ondas
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DAVIDMARREIROS
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19:16:00
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18.4.08
yang
Hoje o dia amanheceu escuro e chuvoso
todo ele ainda envolto no negro tenebroso.
Hoje a minha escuridão ainda se mantinha
mas curto era o dia ainda.
Eis quando o sol brilha,
erguendo-se de toda aquela escuridão opaca
e anulando toda a chuva malvada,
ficando limpo todo o dia.
Toda a minha escuridão recuou,
tornando-se ofuscantemente alva.
Ofuscada decerto pela luminosidade benévola
que toda a minha alma banhou.
Como pode um só ser possuir tanta luminosidade?
Como consegues tu iluminar todo o meu ser?
Como conseguirei eu ultrapassar a diária e arrebatadora saudade?
Como conseguirei eu te vir a ter?
De facto, como consegue a noite ter o dia
se separados eles sempre vivem?
Como consegue a escuridão continuar escura
se a luz luminosa a anula?
Será que nunca te terei para mim,
tal como tu nunca me terás para ti?
Será que juntos nunca iremos estar
porque simplesmente nos iríamos anular?
Mas o dia não existiria caso noite não houvesse.
Caso não existisse escuridão a luz não faria sentido.
O positivo evaporava caso o negativo morresse.
O branco não vivia sem a existência do preto.
Nada faz sentido sem o seu oposto.
Se um não existisse o outro não teria razão de ser.
Tudo precisa do seu directo complemento.
Todos precisamos do oposto para o equilíbrio manter.
Deste modo me deixo dormir.
Fecho os olhos e vejo tudo menos o negro habitual.
Tudo o que vejo e sinto a nada é igual.
E assim, hoje tenho razões para sorrir.
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DAVIDMARREIROS
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17.4.08
yin
Hoje não tenho quaisquer razões para sorrir.
Pelo menos hoje viverei em eterna escuridão.
Sei que hoje já nada me pode salvar ou estender a mão.
Hoje só me resta fechar os olhos e tentar dormir.
Hoje a minha escuridão tornou-se ainda mais negra.
Hoje a minha alma está totalmente cega.
Cegueira provocada não por para a luz olhar
mas por em escuridão o dia passar.
Amanhã preciso da luz que me ilumina.
Amanhã preciso desse sol que tudo fulmina.
Que o teu branco luminoso destrua o meu negro preto.
Que, de mim, tu amanhã estejas perto.
Amanhã espero a tua luz encontrar.
Amanhã pela minha escuridão a dentro a tua luz irá trespassar,
quebrar tudo o que de negro em mim persiste,
anular todo o preto que em mim hoje existe.
E se amanhã o preto nunca ver o branco?
Se amanhã o dia nunca se encontrar com a noite?
Se amanhã não me chegares a cobrir com o teu luminoso manto?
Se o amanhã for inundado pela má sorte?
Então, em eterna escuridão viverei.
Morrerei, simplesmente, envolto de negra melancolia.
A sorrir nunca mais voltarei.
Irei mergulhar na depressiva apatia.
Portanto, hoje durmo de noite desejando amanhã o dia.
A esperar pelo futuro vivo o presente.
Aguardo a chegada do sol que sei que me irradia
enquanto a minha escuridão se mantém latente.
Soturnamente adormecerei hoje.
Iluminado desejo ser amanhã.
Viverei caso o seja.
Morrerei caso não te veja.
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DAVIDMARREIROS
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22:36:00
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não sei o que hei-de fazer
Não sei o que hei-de fazer.
Estou cansado de tudo o que me rodeia.
Não sei sobre o que girar, para onde me mover.
Não sei simplesmente como sair desta teia.
Quero sair disto, deste estado
ao qual me sinto aprisionado.
Quero romper com todas as linhas que me amarram
e que por nada me largam.
Quero quebrar deste suplício mental e sentimental.
Quero-me libertar de todo este malicioso mal.
Quero tudo isto
mas não consigo.
Morrerei a tentar.
Morrerei a amar.
Pelo menos irei expirar,
evaporar pelo infinito ar,
esse que tudo consome e nada rejeita,
que tudo absorve e que a pairar tudo deixa.
E assim, absorvido e consumido meu corpo e alma morrerão
e, suspensos no vazio, todos os meus sentimentos por ti viverão.
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DAVIDMARREIROS
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19:46:00
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15.4.08
farto, simplesmente, meramente, farto…
Estou farto de pensar…
Estou farto de sentir…
Estou farto de não agir…
Estou farto de olhar para o ar…
Estou simplesmente, meramente, farto…
Farto de pensar no mesmo assunto.
Sempre, e a toda a hora na mesma coisa.
Tudo o mesmo passa constantemente pelos mesmos sítios da minha mente.
São sempre as mesmas cabines cheias a rodar na mesma roda gigante.
Cabines cheias da mesma matéria, do mesmo produto.
Farto de sentir o mesmo sentimento.
O mesmo conjunto de sentimentos confusos.
Contraditórios e iguais a si mesmos
Tanto relativos a mim, como aos outros.
Tanto relativos aos próprios.
Farto de não agir,
de me sentir inútil, incapaz
de executar qualquer espécie de acto, movimento.
Sinto-me imobilizado, amputado,
desprovido da capacidade de reagir de forma coerente.
Farto de olhar para o ar,
onde nada existe para ver ou encontrar.
No qual as respostas para as constantes perguntas não se encontram.
Perda completa de tempo enquanto tudo se move, altera.
Sintoma da decadência, doença mental evidente
causada evidentemente pelas evidentes razões:
o constante e absurdo estado de reflexão;
a continua e repetitiva sensação de sentir as mesmas sensações
a aborrecida e abatedora noção de anulação de acção.
Resumidamente, o infinito estado de apatia depressiva.
E o que mais me deprime é apenas uma coisa.
É todas estas razões serem provocadas por uma única.
Tudo gravita em torno de um astro isolado
Todo eu, os meus pensamentos, sentimentos e acções (ou não-acções)
circundam apenas e só uma unidade.
Portanto, penso, sinto e ajo (ou não ajo)
apenas em torno de uma razão,
a razão verdadeira para esta apatia depressiva,
para esta cegueira parcial, relativa,
moldadora de todo o pensamento, sentimento e acção.
Curioso é eu não desejar recusar esta maldição,
este feitiço lançado sobre mim
sem qualquer aviso prévio ou tempo de preparação,
nem sequer qualquer espécie de autorização ou consentimento,
necessário para algo tão malicioso e virulento.
Mas não interessa, nada importa.
Eu gosto desta maldição.
Eu gosto da minha apatia depressiva.
Gosto de estar farto de pensar, de sentir, de não-agir.
Gosto da razão pela qual estou neste estado.
De facto, gosto de estar como estou
apenas por gostar da razão por estar como estou.
Estupidez? Sim. Demência? Sem dúvida.
Não me importo de ser demente ou estúpido.
Importar-me-ia era de não ficar assim, neste exacto modo.
E assim fico simplesmente, meramente,
a pensar,
a sentir,
a não-agir
e, para o nada, a olhar.
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DAVIDMARREIROS
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18:17:00
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13.4.08
transportes públicos
Transportes públicos.
Autocarro, metro…
Estúpido tempo perdido,
enquanto tudo lá fora se passa,
e nada ocorre enquanto estamos dentro.
Tudo sem sentido se faz.
Tudo o que se faz neste espaço,
neste tempo,
não faz qualquer lógica.
Nada se faz…
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DAVIDMARREIROS
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19:43:00
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9.4.08
pequenas grandes coisas
Mais um pequeno diário…
Mais pequenas memórias…
Mais pequenos desenhos…
Mais pequenos pensamentos…
Mais pequenas coisas…
Coisas minhas.
Coisas de trazer de mão.
Coisas portáteis, transportáveis.
Coisas minhas apenas.
Coisas… Coisas pequenas.
Pequenas coisas que, lentamente
maiores se querem tornar.
Tão grandes que, impulsivamente
desejam saltar, rebentar, estilhaçar
deste pequeno diário inocente.
Algo tão pequeno e,
simultaneamente tão gigante
a viver em algo tão reduzido!
Deveras irónico…
Irónico, deveras…
Como conseguem estas coisas
em tão pequeno espaço habitar?
Como conseguem viver assim, sempre fechadas sobre si próprias?
Como se subjugam a esta forma de respirar?
Como conseguem…?
Como consigo eu me sentir fechado na pequenez?
Neste sufoco inabitável?
Preciso de um vazio enchente.
Quero flutuar no espaço infindável.
Necessito do infinito inacabável.
Porquê?
Porque preciso eu de tal?
Talvez apenas por não o possuir.
De facto, todos desejamos tudo,
tudo aquilo de que não somos possuidores.
Não tenho espaço, preciso dele…
Não tenho bem-estar, preciso dele…
Não tenho felicidade, preciso dela…
Não tenho amor-próprio, preciso dele…
Não tenho …, preciso…
Ou talvez não… talvez não.
Talvez não necessite de algo que não tenho.
Talvez esteja bem nesta situação.
Talvez me sinta bem como estou.
Talvez isto seja apenas um estúpido amuo.
Não preciso de espaço.
Não preciso de bem-estar.
Não preciso de felicidade.
Não preciso de amor-próprio.
Não preciso de nada.
Tal como estas palavras que escrevo
se sentem bem onde e como se encontram,
eu estou bem, também.
Estas palavras gostam do seu espaço e do seu modo.
Eu gosto do meu lugar e da minha situação.
Mas ao contrário delas,
que não necessitam de ninguém para viver,
eu preciso de alguém para continuar a respirar,
de alguém que me dê um sentido,
sentido que estas palavras nunca precisam de ter.
Só desejo uma “coisa”.
Só preciso de uma “coisa” para respirar
(para viver, para sobreviver, para morrer?).
Preciso de uma pequena grande “coisa”
Apenas para um pequeno grande lugar em mim ocupar.
Afinal sempre quero algo que não possuo.
Afinal isto é mais que um estúpido amuo.
Preciso de ti.
Quero-te a ti
Perto de mim, para mim…
(Wish You Were Here)
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DAVIDMARREIROS
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19:36:00
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preto, oh preto...
Preto…
Oh, Preto…
Preto…
Preto, Oh Preto…
Preto…
Preto…
O Preto Tudo Anula.
O Preto Tudo Dissimula.
O Preto Tudo Muda.
O Preto em Tudo Ajuda.
Em Preto Tudo se Torna.
Em Preto Tudo se Termina.
Preto…
Preto…
Preto, Oh Preto…
Preto…
Oh, Preto…
Preto…
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DAVIDMARREIROS
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17:58:00
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