davidмarreiroswriting#zerozeroum



]thinking, that's the problem[
]a quem possa interessar ou apenas para me lavar[



15.4.08

farto, simplesmente, meramente, farto…

Estou farto de pensar…
Estou farto de sentir…
Estou farto de não agir…
Estou farto de olhar para o ar…
Estou simplesmente, meramente, farto…

Farto de pensar no mesmo assunto.
Sempre, e a toda a hora na mesma coisa.
Tudo o mesmo passa constantemente pelos mesmos sítios da minha mente.
São sempre as mesmas cabines cheias a rodar na mesma roda gigante.
Cabines cheias da mesma matéria, do mesmo produto.

Farto de sentir o mesmo sentimento.
O mesmo conjunto de sentimentos confusos.
Contraditórios e iguais a si mesmos
Tanto relativos a mim, como aos outros.
Tanto relativos aos próprios.

Farto de não agir,
de me sentir inútil, incapaz
de executar qualquer espécie de acto, movimento.
Sinto-me imobilizado, amputado,
desprovido da capacidade de reagir de forma coerente.

Farto de olhar para o ar,
onde nada existe para ver ou encontrar.
No qual as respostas para as constantes perguntas não se encontram.
Perda completa de tempo enquanto tudo se move, altera.
Sintoma da decadência, doença mental evidente

causada evidentemente pelas evidentes razões:
o constante e absurdo estado de reflexão;
a continua e repetitiva sensação de sentir as mesmas sensações
a aborrecida e abatedora noção de anulação de acção.
Resumidamente, o infinito estado de apatia depressiva.

E o que mais me deprime é apenas uma coisa.
É todas estas razões serem provocadas por uma única.
Tudo gravita em torno de um astro isolado
Todo eu, os meus pensamentos, sentimentos e acções (ou não-acções)
circundam apenas e só uma unidade.

Portanto, penso, sinto e ajo (ou não ajo)

apenas em torno de uma razão,
a razão verdadeira para esta apatia depressiva,
para esta cegueira parcial, relativa,
moldadora de todo o pensamento, sentimento e acção.

Curioso é eu não desejar recusar esta maldição,
este feitiço lançado sobre mim
sem qualquer aviso prévio ou tempo de preparação,
nem sequer qualquer espécie de autorização ou consentimento,
necessário para algo tão malicioso e virulento.

Mas não interessa, nada importa.
Eu gosto desta maldição.
Eu gosto da minha apatia depressiva.
Gosto de estar farto de pensar, de sentir, de não-agir.
Gosto da razão pela qual estou neste estado.

De facto, gosto de estar como estou
apenas por gostar da razão por estar como estou.
Estupidez? Sim. Demência? Sem dúvida.
Não me importo de ser demente ou estúpido.
Importar-me-ia era de não ficar assim, neste exacto modo.

E assim fico simplesmente, meramente,
a pensar,
a sentir,
a não-agir
e, para o nada, a olhar.

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