davidмarreiroswriting#zerozeroum



]thinking, that's the problem[
]a quem possa interessar ou apenas para me lavar[



18.6.08

(um, dois, três)

(Um.
Um, Dois.
Um, Dois, Três.)

Quantos seres estão aqui?
Aqui quantos somos neste ninguém?
Ninguém que sou e mais alguém.

Alguém serei, talvez nunca em mim.
Em mim, nunca mais de um serei.
Ser dois ou três talvez e em apenas um viverei.

Viverei não sei em que vida.
Vida sem ser, tempo ou espaço.
Espaço de tempo em que nada faço.

Nada faço e tudo fica.
Fica tudo em inexistência eterna.
Eterna como a minha própria existência efémera.

Que tédio cansativo, que cansaço entediante, que lenta e lânguida perda de tempo.
Que duradoura e abatedora inutilidade viver para ser nada.
Tudo é tão fugaz e fugitivo, a permanecer existente tudo tarda.

Quero-me então perder, quero voar para além do firmamento.
Quero alcançar o inalcançável e infindável infinito.
Quero chegar àquele lugar longínquo onde tudo sinto.

Quero tudo, tudo e tudo quero, nada mais quero senão tudo.
Quero viver alguma vida, quero existir nalguma existência, quero sentir qualquer sensação.
Quero-me libertar de tudo aquilo que tem o nada como monótona prisão.

Soltar-me das imobilizadoras e duras amarras com as quais arduamente luto.
Combater para quebrar todas as densas e inquebráveis barreiras.
Vou cansar-me, desgastar-me, esgotar-me apenas para sentir tudo de todas as maneiras.

Posso-me multiplicar, em muitos me posso tornar.
Ser mais no mesmo: um, dois ou três, uma quantidade inumerável qualquer.
Ser todos aqueles que forem necessários para tudo poder ser.

Atirar-me à vida sem qualquer apoio ou rede de sustentação sobre a qual ter a segurança de tombar.
Viver com o arriscado risco de ruir, de rebolar, de me reduzir a fragmentados bocados.
De me tornar em numerosos e inumeráveis pedaços.

Quero ser um teste, uma experiência, um tubo de ensaio que fervilha freneticamente de excesso de ocupação.
Vou certamente incendiar, rebentar, detonar numa explosão juntamente com um silêncio endurecedor.
Autodestruir-me, consumir-me internamente com a certa certeza de que tudo terei armazenado no meu interior.

Quero morrer enfim só, só e só comigo e com a minha própria solitária solidão.
Solidão composta pela companhia das minhas outras existências que me acompanharam a viver intensamente.
Morrer apenas um após viver como dois ou três, tudo para não arriscar nada ser e ser algum Ser existente.

(Um, Dois, Três.
Um, Dois.
Um.)


//elogio às múltiplas "Pessoas" do único Fernando Pessoa, incluído a sua própria//

1 comentário:

megat disse...
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